Dançando a Vida e Suando a Camisa 
Existem pessoas que conseguem transcender quando encontram obstáculos. Essas não lamentam aquilo que a vida não lhes pode oferecer, mas encaram os desafios, descobrem novos caminhos e chegam lá. São de fato vencedoras! A exemplo disso, a psicóloga, bailarina e atleta sobre rodas Renata Carvalho nos mostra o lado mais belo da vida.
Seu limite não foi sua limitação. Ela é a própria vida em movimento.
por Graça Póvoa
Inthegra - O que te levou ao grupo de corrida “Suando a Camisa”? E como você chegou a correr a Meia Maratona do Rio?
Renata - A princípio pensei que seria uma forma de andar na praia, mas dois meses depois que eu estava treinando o professor Rossi me chamou para participar de uma corrida. Eu corria uns 5 km por treino e a corrida era de 10 km. Mas eu encarei o desafio. Fui e gostei. Comecei a treinar mais, a participar de outras corridas e procurei uma nutricionista para melhorar meu rendimento. No início do ano, quando eu vi que já estava viciada mesmo, o Rossi me perguntou: “E aí, Renatinha? Tem Meia Maratona esse ano?” Fiquei com aquilo martelando na minha cabeça e depois de um tempo eu disse a ele: “Eu quero correr a Meia Maratona.”. Percebi que já estava em ritmo de Meia quando me vi em uma corrida, tendo que subir a Perimetral. Eu pensei: “Isso aqui vai ser bom pra eu treinar! E já que eu estou aqui, eu tenho que subir!”.
Inthegra - Como foi correr a Meia Maratona?
Renata - Só havia eu de mulher e os homens, com aqueles braços enormes, aquelas cadeiras próprias para corrida, me olhavam de cima a baixo e falavam: “Você vai correr nessa cadeira?”. Eu tinha a sensação de que eles pensavam: “Mas essa menina, magrinha, pequenininha, está achando que vai conseguir o que?”. Eu olhava para eles e pensava: “Eu não tenho esse braço todo! Tudo bem que eu treinei, mas é diferente”. Em 2h e 33 min, consegui completar a corrida. Fiquei em primeiro lugar no Feminino Cadeirante. Agora estou pegando a cadeira própria para corrida e com ela a coisa vai ficando mais séria. “Suando a Camisa é um grupo de corrida onde eu entrei por acaso e agora não quero sair mais.”
Inthegra - O que estimula você a correr?
Renata - Uma coisa legal que acontece nas corridas, fora a mobilização das equipes e das pessoas que vão assistir, é a torcida. Na Meia Maratona, assim que eu passei pela chegada, fiquei muito emocionada e comecei a chorar. Acompanhada de Marcel como apoio, durante duas horas e meia, por onde eu passava, tinha gente batendo palmas. A corrida acabou me favorecendo também em outras coisas. Hoje faço alguns movimentos na dança com muito mais facilidade, porque tenho mais força nos braços. Eu saio da cadeira para a cama, para o carro, subo e desço dela, sem muito esforço. “Suando a Camisa é um grupo de corrida onde eu entrei por acaso e agora não quero sair mais”.
Inthegra - Como você definiria o trabalho da Inthegra motivando a atividade física corporativa?
Renata - A Inthegra leva as pessoas a verem que têm um corpo e que esse corpo precisa de atividade, de cuidado e de saúde. A consciência corporal, através da atividade física orientada, leva as pessoas a se perceberem e mostra que, sem saúde, não se consegue produzir no trabalho. A Inthegra propõe trazer essa consciência corporal, através do exercício. Eu vejo como um botãozinho de “Start”. Para se fazer qualquer coisa é necessário ter saúde, e uma das formas de obtê-la é a gente não se desligar da gente.
Inthegra - A maior dificuldade para as pessoas é começar. Como você conscientizaria uma pessoa a fazer atividade física?
Renata - Vida é movimento e, para a saúde, esse movimento é fundamental. A respiração, nosso princípio básico de vida, já nos mantém em atividade. O corpo foi feito para estar em movimento. É um movimento que gera energia e essa energia vai fazer ele se movimentar mais. Eu penso que não se “tem que” fazer nada. Nada que se é obrigado. Gosto do que vem por uma consciência e por um convencimento. “A vontade de estar em movimento me levou até a dança. Eu danço a vida e vivo a dança.”
 Renata Carvalho e Rosangela Bernabé
Inthegra - Foi você quem deu início à dança sobre rodas. Conte-nos como foi.
Renata - A vontade de estar em movimento me levou até a dança e surgiu quando eu tinha seis anos de idade, algum tempo depois de ficar paraplégica. Eu dizia para minha fisioterapeuta que eu queria dançar. Então ela começou a falar com as pessoas, que a perguntavam: “Como assim, dar aulas de dança para uma menina de cadeira de rodas?”. Até que ela encontrou Rosângela Bernabé, minha parceira, com quem danço desde 1988. O trabalho continuou, apareceram outras meninas e formamos o Grupo Giro. Na dança, a cadeira também faz parte da coreografia e é um elemento que a gente constrói e desconstrói no palco.
Inthegra - O que a dança representa em sua vida?
Renata - Foi a dança que me levou para o mundo, para conhecer muitos lugares e pessoas. Danço a vida e vivo a dança. Ela não fica restrita ao palco, por isso, aonde eu vou levo a dança que, como asas de anjo, me guiam para todo lugar. E o que eu acho mais legal é que a dança tem os elementos que estão na vida: o ritmo, o movimento, a coreografia, a melodia. Por trás de tudo existe uma melodia. Uma das recompensas que a dança me traz é ver a emoção nas pessoas. Para mim, isso já vale por qualquer coisa. Hoje eu vejo a dança como um objetivo profissional. Dançar é para sempre!
Inthegra - Como é a sua relação com a cadeira de rodas?
Renata - Outro dia, passando na rua, ouvi uma menininha de uns cinco anos dizer para a mãe: “Ih mãe, a cadeira dela tem rodas!”. Eu adorei aquilo! A menininha, que estava andando, não ignorou a cadeira só porque era uma coisa diferente dela.
A cadeira confunde-se com o corpo porque é ela que leva o corpo, mas não é o corpo. Com ela eu chego onde quero chegar, ela é parte de mim, mas eu sou eu, sem ela. Da cadeira se vê as coisas do ângulo de quem está sentado e outras coisas são percebidas olhando de baixo pra cima. Esse ângulo faz mudar tudo. Cito aqui o Leonardo Boff, em a Águia e a Galinha. Ele fala sobre a visão da águia, que vê lá de cima, e a visão da galinha, que vê cá de baixo e diz que as duas visões são importantes.
“A deficiência trás uma imagem de perda e limitação. Eu vejo muito mais do que isso na deficiência. Vejo ganhos e trocas também. Qualquer caminho tem perdas e ganhos.”
Inthegra - Qual o objetivo de seu trabalho na Psicologia em conjunto com a Dança?
Renata - Acho que a dança está no meu sangue, porque está também em minhas escolhas. Eu queria um trabalho com “gente” que não excluísse a dança e escolhi a Psicologia. Na faculdade encontrei a “psicoterapia corporal”, que associa a psicologia ao corpo e que trabalha o movimento sentido e com sentido. Isso me trouxe a consciência do meu corpo e dos meus movimentos. Hoje eu trabalho com a importância que eu acho que o corpo tem. Porque não somos só uma cabeça, somos um corpo inteiro. E o corpo inteiro fala, sente, sinaliza. A psicologia veio para complementar muita coisa da dança que antes eu não entendia e me ajudou a ver que tudo está interligado.
Inthegra - O que é Consciência Corporal e como você a usa em seu trabalho?
Renata - A Consciência Corporal é a consciência do movimento do corpo ou um movimento de vida. É um movimento sentido e que tem um sentido. É baseada na própria pessoa, no que ela sente, como se percebe, como percebe o mundo e os outros. A gente vai perdendo essa consciência porque vai dando espaço para outras coisas e se distanciando da gente. O corpo é o nosso maior bem, nosso maior instrumento. E o corpo fala o tempo todo. A gente não se comunica só falando, ou só com gestos. Essas outras formas passam por nosso corpo e por nossa energia. Eu trabalho muito a Consciência Corporal associada aos princípios de vida independente, da autonomia, em que a pessoa reconhece e reassume o próprio corpo.
Inthegra - Qual o objetivo de seu trabalho no CVI-Rio - Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro?
Renata - O CVI é uma ONG que trabalha com a filosofia de vida independente. Nossa frase lema é: “O seu limite pode não ser a sua limitação”. Entendemos que a pessoa deve ter a maior autonomia possível, inclusive a autonomia de decisão. O CVI quer fortalecer a pessoa, tirar o foco da deficiência e orientar também no uso do equipamento adequado, na empregabilidade e na vida afetiva, que nunca deixa de existir. A deficiência trás uma diferença clara, mas essa diferença não deve ser um impedimento. Muitas vezes as pessoas com deficiência deixam de ir aos lugares porque não têm uma adaptação para elas. Com a autonomia elas começam a se ver e a serem vistas como cidadãos que estudam, trabalham e contribuem com toda a sociedade.
O limite está visível, mas a limitação é invisível. Uma coisa é você ter limite e a outra coisa é você ter fronteira. Limite é limite, dali você não passa. Fronteira você pode passar.
Palestras e apresentações: renatacarvalho@walla.com
Entrevista com Renata Carvalho
Concedida a Graça Póvoa - Inthegra/Mídia
Em 19 de setembro de 2006 - Niterói-RJ
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